A cefaleia é geralmente descrita como dor localizada acima da região orbital e é uma das queixas mais comuns em adolescentes e adultos.1 Aproximadamente 60% das crianças já tiveram cefaleias. A prevalência das cefaleias aumenta
com a idade e aos 18 anos mais de 90% dos adolescentes refere já ter tido pelo menos uma cefaleia.2

Os episódios de cefaleias podem muitas vezes passar despercebidos aos cuidadores. As crianças mais novas expressam as cefaleias de forma diferente das crianças mais velhas e adolescentes. Algumas das manifestações podem ser o choro, movimentos
estereotipados de balanço ou até de alterações do nível da atividade.3,4 Nas crianças, as cefaleias mais prolongadas podem provocar alterações comportamentais, ansiedade, depressão, que podem levar a dificuldades na alimentação e hábitos
de sono da criança.1

As cefaleias podem ser classificadas em:1

  • Primárias: intrínsecas ao sistema nervoso
  • Secundárias: a cefaleia é um sintoma consequente de uma patologia de base

Cefaleias primárias

As cefaleias primárias mais comuns em idade pediátrica são as enxaquecas e as cefaleias de tensão.1 Nas enxaquecas, os episódios de dor são recorrentes e de caráter latejante. Tipicamente, a dor agrava com a atividade, o que pode levar a diminuição da atividade das crianças. Nas crianças é mais comum a dor localizar-se bilateralmente, na região frontal ou na região temporal. Os episódios de enxaquecas em crianças podem associar-se a náuseas, vómitos e sensibilidade auditiva e luminosa. As enxaquecas podem também ser acompanhadas de alterações de linguagem, parestesias, fraqueza e confusão.1,5

As cefaleias de tensão são descritas como uma dor do tipo pressão contínua. A dor das cefaleias de tensão é geralmente bilateral e localiza-se na região frontal ou temporal, com intensidade variável. As cefaleias de tensão por norma não são agravadas pela atividade física e não interferem com as atividades diárias. Algumas crianças podem manifestar cansaço e sensibilidade auditiva ou luminosa, embora com menos frequência do que nas enxaquecas.6

Cefaleias secundárias

Existem diversas situações que podem causar cefaleias secundárias em crianças:1,7

  • Febre – associada a infeções do trato respiratório superior, sinusite e rinossinusite. Estas infeções são a principal causa de cefaleias secundárias em crianças.
  • Trauma – cefaleias após situações em que a criança embate com a cabeça.
  • Medicação – em que as cefaleias são reação adversa ao medicamento ou resultado da utilização excessiva de analgésicos.
  • Problemas visuais – embora não exista evidência suficiente de que erros de refração visuais sejam responsáveis por cefaleias secundárias em crianças.8
  • Hipertensão arterial
  • Meningite
  • Tumores cerebrais
  • Hemorragias intracranianas

Sinais de alarme

Existem alguns sinais de alerta que, quando associados a cefaleias, devem levar os cuidadores a procurar um médico, nomeadamente:7

  • Cefaleias que acordam a criança
  • Cefaleias recorrentes ao acordar
  • Vómitos e náuseas persistentes
  • Cefaleias que não aliviam com a medicação
  • Alteração do estado mental e dificuldades de coordenação
  • Agravamento da cefaleia pela atividade física, tosse ou defecação
  • Alteração do tipo de dor, intensidade e frequência
  • Padrão de agravamento progressivo
  • Sinais de trauma
  • Anomalias do crescimento
  • Sintomas ao nível do pescoço e costas

Além disso, os cuidadores devem consultar um médico quando as cefaleias ocorrem em crianças com menos de 6 anos, quando há alteração dos traços de personalidade e deterioração do desempenho escolar.

A avaliação clínica das cefaleias começa com uma história clínica detalhada e a realização de um exame objetivo físico e neurológico. Na grande maioria dos casos, os médicos dos cuidados primários têm capacidade para tratar cefaleias em crianças. As crianças devem ser encaminhadas para um especialista em casos particulares, como por exemplo:7,9,10

  • Cefaleias secundárias que requeiram uma abordagem específica
  • Alteração de humor ou ansiedade
  • Cefaleias de elevada frequência que não respondam à terapêutica
  • Diagnóstico incerto
  • Necessidade de uma abordagem mais intensiva e multidisciplinar.

Os episódios de cefaleias em crianças podem ser extremamente difíceis de identificar.

É fundamental que os cuidadores conheçam as manifestações mais comuns e sejam capazes de reconhecer sinais de alarme para procurarem um médico.

Referências:

  1. Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS) The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia. 2018 Jan;38(1):1-211. doi: 10.1177/0333102417738202. PMID: 29368949.
  2. GBD 2019 Diseases and Injuries Collaborators. Global burden of 369 diseases and injuries in 204 countries and territories, 1990-2019: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2019. Lancet. 2020 Oct 17;396(10258):1204-1222. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30925-9. Erratum in: Lancet. 2020 Nov 14;396(10262):1562. PMID: 33069326; PMCID: PMC7567026.
  3. Rothner AD. The evaluation of headaches in children and adolescents. Semin Pediatr Neurol. 1995 Jun;2(2):109-18. doi: 10.1016/s1071-9091(05)80021-x. PMID: 9422238.
  4. Kelly M, Strelzik J, Langdon R, DiSabella M. Pediatric headache: overview. Curr Opin Pediatr. 2018 Dec;30(6):748-754. doi: 10.1097/MOP.0000000000000688. PMID: 30157045.
  5. Slater SK, Powers SW, O’Brien HL. Migraine in children: presentation, disability and response to treatment. Curr Opin Pediatr. 2018 Dec;30(6):775-779. doi: 10.1097/MOP.0000000000000694. PMID: 30234648.
  6. Mathew PG, Garza I. Headache. Semin Neurol. 2011 Feb;31(1):5-17. doi: 10.1055/s-0031-1271313. Epub 2011 Feb 14. PMID: 21321829.
  7. Lewis DW, Koch T. Headache evaluation in children and adolescents: when to worry? When to scan? Pediatr Ann. 2010 Jul;39(7):399-406. doi: 10.3928/00904481-20100623-05. PMID: 20666345.
  8. Roth Z, Pandolfo KR, Simon J, Zobal-Ratner J. Headache and refractive errors in children. J Pediatr Ophthalmol Strabismus. 2014 May-Jun;51(3):177-9. doi: 10.3928/01913913-20140429-02. PMID: 24804974.
  9. Gladstein J, Mack KJ. Common presentations of chronic daily headache in adolescents. Pediatr Ann. 2010 Jul;39(7):424-30. doi: 10.3928/00904481-20100623-07. PMID: 20666348.
  10. Dao JM, Qubty W. Headache Diagnosis in Children and Adolescents. Curr Pain Headache Rep. 2018 Feb 23;22(3):17. doi: 10.1007/s11916-018-0675-7. PMID: 29476266.

Os artigos publicados neste espaço são da responsabilidade do corpo editorial da Grünenthal, S.A., tendo sido elaborados com a colaboração específica de profissionais de saúde.

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