“Aliviar a dor é obra divina”, Hipócrates.

A Medicina Geral e Familiar é, talvez, a especialidade médica mais representativa da evolução da Medicina moderna, mas que, ao mesmo tempo, representa o core da profissão médica, pela proximidade que mantém à pessoa em toda a sua individualidade.

Tem, por isso, como objetivo criar uma rede de suporte em todas as vertentes das necessidades de saúde do ser humano.

A dor é, desde os primórdios da medicina, uma das queixas que mais determina a procura do médico. Muito tem sido pensado e escrito sobre a necessidade humana de suportar a dor, enquadrado em contextos filosóficos e religiosos que foram evoluindo ao longo dos tempos. Sendo sempre interessante discutir a evolução da filosofia da dor, é indiscutível para a medicina moderna que a dor deve ser prevenida e tratada adequadamente e que se trata de uma condição na qual o médico tem um papel determinante como garante da qualidade de vida da pessoa que trata.

No entanto, para além do tratamento da dor, tem-se verificado uma necessidade cada vez maior daqueles que sofrem com dor de uma explicação para a sua condição e para a procura, a par da analgesia, de uma manutenção de capacidade funcional.

Esta necessidade de ter, durante cada vez mais anos, uma capacidade funcional adequada, tem trazido novos desafios à abordagem da dor. Afinal, já não são poucos os doentes com 70 e mais anos que mantêm atividade profissional ativa e que procuram o médico para aliviar a sua dor e manter uma vida com qualidade.

Toda esta evolução constitui um desafio que, em primeira linha, é do médico de família e que necessita de bases sólidas de forma a ser respondido.

A EPIDEMIOLOGIA

Um estudo realizado em Portugal determinou a prevalência da dor crónica na população adulta em cerca de 1 em 3 portugueses (Azevedo, et al., 2012). Observa-se ainda um baixo nível de qualidade de vida nas pessoas que sofrem com dor crónica, associado a um tempo relativamente longo até ao diagnóstico. No estudo mais recente, Chronic Pain Care, apresentado no último Congresso Europeu de Dor (Antunes F., et al., 2019), verificou-se que a causa de dor mais frequente é a lombalgia, seguindo-se a dor nos membros inferiores (66%) e nos membros superiores – ombros (33%) – e região cervical (33%). Para além disso 95% dos doentes com dor crónica apresentam outras comorbilidades crónicas associadas, nomeadamente, doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas (72%), doenças do sistema circulatório (64%) e do sistema musculoesquelético e ligamentos (43%). Neste estudo as principais dificuldades referidas pelos doentes são a dor e/ou desconforto (92%), a realização de tarefas quotidianas (74%), ansiedade e depressão (69%), dificuldade na mobilidade (67%) e na realização de cuidados de higiene (43%).

A DOR CRÓNICA E AS OUTRAS PATOLOGIAS CRÓNICAS

Pela sua prevalência, a dor crónica necessita de uma abordagem integrada em que os Cuidados de Saúde Primários (CSP) estejam envolvidos e sejam o motor da mudança necessária para tratar adequadamente todos as pessoas que sofrem com dor.

A dor crónica tem impacto negativo no tratamento de outras patologias crónicas pela sua associação a quadros de ansiedade e depressão e pela perturbação do sistema neuro-endócrino que dela decorre.

Este dado é importante porque explica o insucesso terapêutico noutras patologias em doentes que sofrem com dor crónica. Assim, reforça-se a necessidade de adequar o tratamento a estes doentes tendo em vista um quadro de multi-patologia, muitas vezes presente.

O PAPEL DO MÉDICO DE FAMÍLIA

Importa então refletir sobre o papel do médico de família na abordagem e tratamento da pessoa com dor. Na dor, como noutras patologias crónicas, a prevenção e o tratamento precoce são fundamentais.

A literatura é unanime em considerar que a melhor estratégia para impedir a cronificação da dor é um tratamento o mais adequado possível implementado o mais cedo possível.

Assim, a identificação do doente em risco de desenvolver um quadro de cronificação da dor é da maior importância no contexto em que vivemos. Permitirá proporcionar ao doente uma maior qualidade de vida e reduzir a necessidade de intervenção médica no médio e longo prazo.

O FUTURO

É imperativo delinear uma estratégia que inclua a abordagem à dor crónica como uma prioridade para os CSP.

A criação de consultas ou programas específicos para a pessoa com dor crónica poderá ser o primeiro passo neste sentido.

Só com esta estratégia integrada poderemos travar a progressão desta patologia e oferecer o melhor tratamento para a pessoa que sofre com dor.

Autor:
Raul Marques Pereira, especialista em Medicina Geral e Familiar e coordenador do Grupo de Estudos de Dor da APMGF