É essencial falar

A dor é um problema frequente em pessoas com cancro, embora mais de metade das vezes seja possível tratá-la eficazmente.1 Nem sempre se fala sobre a dor ao médico, fazendo com que este importante sintoma se mantenha presente, degradando o bem-estar não apenas físico, mas também emocional, social e financeiro.

É possível que a dor apareça nas várias fases da doença oncológica, seja durante e após intervenções de diagnóstico, no seguimento de tratamentos ou como consequência da própria doença. Muitas vezes, neste contexto, a dor pode surgir devido a uma lesão nas terminações nervosas, o que se designa por dor neuropática.2 Para garantir que recebe o tratamento adequado, a pessoa deve falar explicitamente sobre a dor ao seu médico.

Do ponto de vista clínico, saber que uma pessoa com cancro tem dor pode ser altamente relevante. Em primeiro lugar, porque a dor pode indicar se a terapêutica instituída está a ser tolerada e até se o cancro está a responder positivamente, sendo que a dor pode sinalizar uma necessidade de modificar a terapêutica por forma a maximizar o benefício. Em segundo lugar, independentemente da sua causa, existem formas de aliviar a dor, permitindo que a pessoa viva com a maior qualidade de vida possível. Permanecer em silêncio só irá prejudicar.

Existem múltiplas razões pelas quais se evita falar sobre a dor, seja vergonha, uma sensação de culpa, ou até pensar-se que a dor “faz parte” do cancro e que simplesmente se tem que viver com a situação. É também possível que exista o receio de dependência dos medicamentos. No entanto, é quase universalmente verdade que os médicos serão capazes não apenas de compreender o que está a acontecer, mas também de ajudar a aliviar este sofrimento. Contudo, sem saber das queixas, nunca será possível chegar a qualquer forma de solução. Assim, é essencial comunicar.

O que dizer

Uma vez aprestada a queixa, os médicos são habitualmente eficazes em avaliar o “grau” de dor que se está a sentir. Contudo, não basta dizer que a dor existe. Há que dar cara ao que se sente. De forma a ajudar o médico, deve-se tentar ser o mais detalhado possível em descrever todos os elementos associados à dor, nomeadamente:

  1. Onde é que se está a sentir a dor?
  2. Há quanto tempo é que a dor está presente?
  3. Como tem evoluído a dor? Tem aumentado ao longo do tempo? Tem-se mantido estável?
  4. A dor está presente durante quanto tempo? Durante umas horas? Durante todo o dia?
  5. Existe alguma altura no dia em que a dor fica pior? Ao acordar? Ao fim do dia?
  6. Como é a dor? Arde? São pontadas?
  7. O que faz aliviar a dor? Medicamentos? Posições?
  8. A dor faz com que não seja capaz de realizar atividades do dia a dia? Consegue trabalhar? Consegue cuidar de sua casa? Consegue sair de casa de forma a socializar?

Diário de dor

Lembrar-se de todos estes elementos pode ser difícil, pelo que se sugere criar um diário. Este não tem porque ser algo de extenso, basta que se registem e caracterizem os episódios de dor, destacando: Onde? Quanto durou? Como foi a dor? O que se fez para aliviar? As medidas de alívio funcionaram?

Pode ser particularmente útil perceber se a dor tem piorado ao longo do tempo, indicando que se deverá instituir alguma forma de terapêutica. Por vezes a melhor forma de fazer isto é trazer reforços. Traga a sua mulher/marido, a sua mãe, o seu filho, por forma a corroborar e auxiliar neste processo de comunicação.

Faça perguntas

Por último, se tiver alguma pergunta, faça-a. Pode ser importante escrever uma curta lista dos pontos mais relevantes que gostava de ver esclarecidos. A pessoa e o seu médico terão muito que falar, pelo que devemos garantir que não nos esquecemos de algo que seja verdadeiramente importante.

Formigueiro, choques elétricos, sensação de queimadura? Pode ser dor neuropática!

A dor neuropática pode ser definida como “dor causada por uma lesão ou doença do sistema nervosos somatosensorial”2 e pode levar à perda de função e ao aumento da sensibilidade à própria dor3. Estima-se que a dor neuropática relacionada com o cancro afete até 39% dos doentes oncológicos.4

Alguns dos sinais e sintomas de dor neuropática relacionada com o cancro são3-5:

– Formigueiro e cãibras
– Sensação de queimadura e ardor
– Sensação de choque elétrico
– Comichão, rubor ou inchaço
– Dormência dolorosa, perda de sensibilidade e fraqueza muscular
– Sensação de picadas (como alfinete ou agulha)

Referências

  1. Van den Beuken-van Everdingen MH, De Rijke JM, Kessels AG, Schouten HC, Van Kleef M, Patijn J. Prevalence of pain in patients with cancer: a systematic review of the past 40 years. Annals of oncology. 2007 Sep 1;18(9):1437-49.
  2. Neuropathic Pain (NeuPSIG). International Association for the Study of Pain. Disponível em: https://www.iasp-pain.org/group/neuropathic-pain-neupsig/ [Acedido em fevereiro 2022].
  3. Edwards HL, Mulvey MR, Bennett MI. Cancer-Related Neuropathic Pain. Cancers (Basel). 2019 Mar 16;11(3):373.
  4. Yoon SY, Oh J. Neuropathic cancer pain: Prevalence, pathophysiology, and management. Korean J Intern Med. 2018;33(6):1058–1069.
  5. 5. Pérez CH, Alonso AB, Ramos AA, Villegas FE, Virizuela JA (coords). Guia para abordagem interdisciplinar da dor oncológica (GADO). 7ª edição. [Internet]. Pozuelo de Alarcón: Canal Estrategia Editorial S.L. 2021. Disponível em: https://www.gado.es/otros-recursos [Acedido em fevereiro 2022].

Os artigos publicados neste espaço são da responsabilidade do corpo editorial da Grünenthal, S.A., tendo sido elaborados com a colaboração específica de profissionais de saúde.